Colossenses – parte 1 (aula de 07/08/2011)

[Por Maria Cristina Gomes]

Colossenses é uma das "Cartas da Prisão", escritas por Paulo durante seu cativeiro em Roma (quadro "Apóstolo Paulo na Prisão", de Rembrandt)

Cada uma das epístolas de Paulo tem algum tema dominante, alguma verdade mais saliente. Em Romanos destaca-se a Justificação pela fé, que conduz à total transformação do crente segundo a imagem de Cristo. Em Gálatas contrasta-se a Liberdade Cristã com o legalismo. Em Filipenses é frisada a Alegria Suprema produzida pelo bem-estar espiritual, em Cristo, a despeito das circunstâncias adversas. Em Efésios ressalta a nossa União Mística com Cristo, com a restauração de tudo, através do cumprimento do mistério da vontade de Deus.

E nesta epístola aos Colossenses aparece mais a Grandeza de Cristo, por ser Ele a Cabeça de toda a criação, o que, para o crente, resolve todos os problemas de lealdade.

  • Autor: Paulo (e Timóteo). 1.1; 4.18.
  • Data: 60 ou 61 d.C.
  • Local: Prisão (em Roma ou Éfeso?) (4.3; 4.18).
  • Tema: A supremacia de Cristo
  • Classificação: cristologia (doutrina de Cristo).
  • Texto chave – Colossenses 3:11.

1. A Cidade de Colossos

Colossos ficava a sudoeste da Frigia, na Ásia Menor, às margens do rio Lico. A cidade foi importante no século V a.C.. Depois foi perdendo sua importância diante do crescimento de Laodicéia, a 18 km, e Hierápolis (Col. 4:13). O livro de Apocalipse confirma que Laodicéia era uma cidade rica (Ap. 3:18). A região é vulcânica e sujeita a terremotos. A fertilidade da terra era grande e suas águas eram valiosas para a tinturaria, havia um vívido comércio em artigos de lã tingida. Colossos e Laodicéia eram famosas pelo brilho de seus pigmentos.

Colossos perdeu sua importância devido à mudança no sistema de estradas. Isso passou a beneficiar Laodicéia. A cidade dos Colossenses foi destruída no século 12 dC. Escavações arqueológicas realizadas em 1835 descobriram um teatro e um cemitério da cidade.

A igreja em Colossos deve ter sido fundada por Epafras. Isso não está claro no Novo Testamento, mas parece ser uma dedução coerente com as palavras de Paulo (Col. 1:7,8). É provável que Paulo nunca tenha estado em Colossos. Isso é deduzido de Col. 2:1. Apesar de tantas questões incertas sobre a fundação da igreja, o que sabemos com certeza é que a mesma estava sob a liderança de Epafras, como também ocorria com as igrejas de Laodicéia e Hierápolis (Col. 4:12-13). O texto de Colossenses 4 e também o de Filemon 23 nos dão a entender que Epafras estava preso juntamente com Paulo, quando este escreve as chamadas “epístolas da prisão”: Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemon. Essa circunstância comum às quatro cartas faz com que haja algumas semelhanças entre elas, principalmente entre Efésios e Colossenses (Exemplo: Ef. 6:21-22 / Col. 4:7,9 / Fm. 10,23,24).

2. Motivos e Propósitos

Epafras fora falar com Paulo, a fim de narrar-lhe as dificuldades da igreja de Colossos (Col. 1:4-8). Sem dúvida ele informou ao apóstolo sobre a penetração da heresia gnóstica naquele local. E foi para responder a esse problema que esta epístola foi escrita. Serviu também com o propósito de instrução positiva quanto às crenças e à ética cristã.

Paulo conhecera Onésimo, o escravo fugido de Filemon, no cárcere, ou então alguém o trouxe à presença do apóstolo. Tendo conduzido-o a Cristo e em seguida à compreensão que era seu dever retornar a Filemon, Paulo enviou por seu intermédio uma missiva a Filemon, a fim de garantir a aceitação favorável do portador. Também aproveitou para enviar uma epístola geral à igreja de colossos (que é a nossa epístola aos Colossenses).

A heresia gnóstica assediou a igreja cristã por cerca de cento e cinqüenta anos. Oito dos livros do NT foram escritos contra a mesma, a saber: Colossenses, as três epístolas pastorais ( I e II Timóteo e Tito), a três epístolas joaninas e a epístola de Judas.

3. O Problema dos Colossenses: Judaísmo e Gnosticismo

Epafras levou ao conhecimento de Paulo a situação dos Colossenses.  O “relatório” apresentava dois aspectos importantes. Em primeiro lugar, foi dado testemunho a respeito da fé, do amor e do crescimento daquela igreja (1:4-8; 2:5). A outra informação dava conta de que alguns líderes estavam se infiltrando na comunidade e levando influências judaicas e filosóficas (2:8). Esses elementos estavam se misturando e produzindo heresias. A parte filosófica em questão era a doutrina dos gnósticos.

Juntando tudo isso, os irmãos estavam sendo pressionados em relação aos seguintes pontos:

  • Valorização dos mistérios do gnosticismo.
  • Adorações a anjos aos quais os gnósticos atribuíam a obra da criação.
  • Ascetismo exterior: abstinência de comidas e bebidas (influência gnóstica e judaica)
  • Observância da lei mosaica (influência judaica)
  • Prática da circuncisão
  • Comemoração das festas judaicas.
  • Guarda do sábado

 Os gnósticos acreditavam que:

  • O mal estava ligado à matéria. Este conceito produzia outros bastantes perigosos.
  • Criam que, sendo a matéria má, então não foi Deus quem a criou, mas sim os anjos. Se a matéria é má, então a encarnação divina não poderia ser considerada um fato nem uma possibilidade. Assim, estava criado um sistema doutrinário que negava a divindade de Cristo e a obra da cruz.

Apesar de não ser diretamente responsável pela igreja em Colossos, Paulo reage energicamente contra aquelas heresias que ameaçavam a sã doutrina. Em seu combate, Paulo destaca a supremacia de Cristo. A sua divindade e a sua obra na cruz eram elementos plenamente suficientes para a refutação de todos aqueles ensinamentos judaicos e filosóficos (2:8-10). De forma incisiva, Paulo derruba todos aqueles sofismas. Ele destaca que o mistério que nos interessa é Cristo, o qual já foi revelado a nós. Então, de nada importam os mistérios gnósticos (1:26-27; 2:2-3; 4:3). Se conhecermos a Cristo, não precisamos inquirir sobre nenhum outro mistério religioso ou filosófico.

O Argumento de Paulo

  • O nome gnosticismo vem do termo “gnose”, que significa conhecimento. Paulo usa a mesma palavra para mostrar que o conhecimento de Deus através de Cristo é suficiente para suprir as necessidades espirituais do homem (Col. 1.9-10,27-28; 2.2-3; 3.16)
  • O gnosticismo atribuía a criação aos anjos, colocando-os como objeto de culto (2.18). Grande importância era conferida aos “aeons”, ou ordens de seres angelicais em detrimento para a posição de Cristo. A isso, Paulo combate ao dizer que Cristo, sendo Deus, é o criador de todas as coisas, inclusive dos anjos (1.13-17). Acrescenta ainda, que o Senhor Jesus está acima de todos os poderes angelicais, sejam eles principados ou potestades, os quais estão sujeitos ao senhorio de Cristo (2.10,15). Adorando anjos, os gnósticos estavam, de fato errados, pois os anjos de Deus não recebem culto. Paulo associa os “anjos dos gnósticos” aos demônios quando diz que Cristo despojou os principados e potestades, expondo-os ao desprezo.
  • Os gnósticos, em Colossos, tinham incorporado em seu sistema alguns elementos das leis cerimoniais judaicas, assim encorajando as suas tendências para o ascetismo (2:16), mas Paulo insiste em pontos já presentes nas outras epístolas: Cristo já nos resgatou do domínio das exigências cerimoniais da lei. Ele a cravou na cruz (2:14). O significado de Cristo em nós (1:27) supre totalmente o que poderíamos buscar através da circuncisão (2:11; 3:11), ou das festas, ou dos sábados (2:16-17). Já temos Cristo, então não precisamos mais desses elementos judaicos, os quais possuíram o seu valor numa época em que Cristo não tinha vindo ao mundo. Paulo diz que aqueles elementos do judaísmo eram “sombra”. Cristo é a realidade. Não precisamos mais da sombra. O autor da carta aos Hebreus usa a mesma linguagem para comparar a lei e o judaísmo com a realidade cristã (Hb.8:5; 10:1).

Os gnósticos eram falsamente humildes, pois se guiavam por uma forma de verdadeira auto-exaltação, já que o ascetismo deles somente promovia o orgulho espiritual. Os judaizantes e os gnósticos traziam um fardo de mandamentos exteriores para os gentios convertidos ao cristianismo. Contudo, suas leis atingiam apenas questões superficiais e até supérfluas.

Colossos sofreu um terremoto ainda durante o império romano, mas ao invés de reformar a cidade, os governantes preferiram abandoná-la em ruínas, transferindo a importância para Hierápolis e Laodicéia, cidades próximas e que podiam absorver a importância de Colossos

Afirmando que a matéria é má, os gnósticos impunham severas regras de alimentação e disciplina. Contudo, nada disso seria útil ao espírito. Tal rigor poderia até ter utilidade para o corpo, mas era inútil para a alma e não poderia ser colocado como questão espiritual, religiosa, ou relacionada à salvação eterna. De modo geral, pode-se dizer que o gnosticismo de colossos era uma mistura de judaísmo do que era normal. Também pedira por empréstimo idéias comuns às religiões misteriosas orientais e ao neoplatonismo e o resultado disso era uma horrorosa conglomeração. Foi contra essas crenças sincretistas que Paulo escreveu esta epístola.

No capítulo 3, Paulo fala do que realmente afeta a alma humana: o pecado. De que adiantariam tantas ordenanças e rituais se o pecado continuasse ocorrendo livremente. Então, o apóstolo toca no que realmente era importante para os Colossenses e continua importante para nós. Ao invés de ficarem preocupados com questões de alimentação, eles deviam se preocupar em combater a prostituição, a avareza, a impureza, etc, pois estes elementos atrairiam a ira de Deus sobre os homens (Col. 3.5-6). Falando assim, Paulo mostra que, enquanto os gnósticos associavam o mal à matéria, o mal está é no pecado, na natureza pecaminosa do homem, e não na matéria em si.

4. Temas Principais

O seu grande tema central é a pessoa de Cristo, o Cabeça, o Mistério de Deus; Ele é divino, mas é humano, pois efetuou autêntica expiação, mediante sua morte.A grandeza de Cristo é destacada nesta epístola.

Todas as grandes doutrinas desta epístola são apoiadas sobre a natureza de Cristo como Cabeça e como Deus, mas sob hipótese alguma sua humanidade autêntica ou sua missão terrena são apagadas ou ignoradas. A parte prática também se alicerça sobre a pessoa de Cristo (cap. 3 e 4), pois a vida piedosa, na realidade, consiste de participarmos de sua vida eterna e ressurreta, uma vez que tenhamos morrido para o mundo (3:1-5).

5. Reflexão

A igreja em Colossos foi sendo gradativamente afastada de Cristo por causa do ensino que salientava a hierarquia dos poderes angelicais, como se Cristo fosse um desses poderes, e não Senhor e Criador dos mesmos. Os mestres gnósticos faziam dos poderes angelicais objetos de adoração, roubando Cristo de sua posição sem par.

No mundo de hoje, muitas coisas menores se têm tornado objeto de adoração e também desviam nossas mentes para longe de seu senhorio o que subentende total dedicação da alma a Ele. A isto chamamos de SENHORIO de Cristo em nossas vidas. A fé consiste na outorga da própria alma a Cristo, da consagração do próprio “eu”.

Como Cristo, nosso Senhor, pode e deve transformar-nos dessa maneira, é o tema central e dominante da epístola que começamos a estudar. (MARAVILHA!!)

Bibliografia

  1. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo. Russel Champlin
  2. O Novo Dicionário da Bíblia. Junta Editorial Cristã, Ed. Vida Nova.
  3. Comentário Bíblico do Novo Testamento. Craig S. Keener,Belo Horizonte, Edit. Atos.

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