Filipenses – Parte 1 (aula de 28/08/2011)

Filipenses é uma das cartas de Paulo do grupo das “Cartas da Prisão”. Ao contrário dos crentes Colossenses, Paulo conhecia pessoalmente os irmãos que se reuniam em Filipos. Até a pouco tempo, minha impressão é que essa fosse daquelas “igrejinhas da roça”, uma igreja de cidade pequena, onde todo mundo conhece todo mundo. Isso porque a forma de Paulo escrever a esses irmãos com tanto afeto, num tratamento tão pessoal, dócil e fraternal, me fez pensar que se tratava de um grupo menor de irmãos, logo seria um ambiente mais fácil de se criar laços de amizade estreitos.

Filipos foi a primeira cidade da Europa a receber a pregação do evangelho

Mas qual não foi minha surpresa ao descobrir que Filipos era uma metrópole, uma das maiores e mais importantes cidades da Ásia Menor! Considerada uma porta de entrada da Ásia para a Europa (consequentemente um ponto vital e estratégico em termos militares), era localizada no Leste da Macedônia,  a cerca de 13 quilômetros do mar Egeu. A cidade tem esse nome em homenagem a Filipe II (pai do famoso Alexandre, o grande), que conquistou o povo que ali vivia, os trácios, em 358 aC. Em 108 aC passou para domínio romano e foi palco de batalhas históricas, como a de Marco Antônio e Otávio Augusto contra Brutus e Cássio, assassinos de Júlio César (42 aC) e do próprio Otávio Augusto contra Marco Antônio e Cleópatra (33 aC). Os vencedores se instalaram em Filipos, o que deu à cidade o status de colônia romana e o Ius Italicum, uma denominação de que a cidade se tornara uma “réplica menor de Roma”. Seus habitantes tinham cidadania romana e os que possuíam imóveis ou terrenos tinham direito de propriedade equivalente aos que possuíam imóveis  em solo italiano.

Isso me fez ver que Filipos era uma cidade grande, com uma população rica e aristocrática, o que já torna a carta de Filipenses notável, pois mesmo uma igreja que certamente era tão grande, com pessoas abastadas e politicamente poderosas, era acolhedora e calorosa. Esta igreja foi fundada por Paulo durante a Segunda Viagem Missionária (Atos 16:10-12) e a primeira convertida que a Bíblia cita foi uma mulher chamada Lídia, vendedora de um caro pigmento de tingir (púrpura), que ofereceu sua casa como ponto de reunião (Atos 16:14-16). Mas nem tudo é tranquilo nessa cidade.

Nesse mesmo local Paulo e Silas foram interpelados pelos magistrados da cidade, açoitados e presos, tudo isso por terem expulsado um espírito maligno de uma mulher que fazia adivinhações. No cárcere, seus pés foram amarrados ao tronco e ainda houve um terremoto na prisão. Ainda assim, a carta aos Filipenses é cheia de Alegria e não traz menção a esses percalços, bem como nenhuma reprovação severa como se vê em outras cartas do apóstolo. Tanto é que o apóstolo agradece a Deus e diz palavras afetivas aos Filipenses, expressas nos primeiros versículos do livro (Filipenses 1:1-11).

Preso, velho, necessitado e doente, mas feliz?

Paulo escreveu esta carta enquanto estava encarcerado. Supondo que se tratava de seu primeiro aprisionamento em Roma (entre 60 e 62dC), possivelmente estava em uma prisão domiciliar, onde passava os dias acorrentado a um soldado romano. Embora tivesse direito a viver numa moradia, seus custos eram por sua conta (Atos 28:16), mesmo que ele não pudesse sair da residência para trabalhar, logo deveria depender de pequenos serviços e doações para se sustentar. É também possível que estivesse doente, caso o “espinho na carne”  mencionado em II Coríntios 12 : 7, fosse alguma moléstia, como muitos estudiosos do assunto acreditam que foi, além de já estar em considerável idade, em torno de 60 anos. Nessas condições, (prisioneiro, doente, velho e necessitado), como é possível falar em “estar feliz”?

Segundo o Dicionário Houaiss da língua portuguesa, “felicidade” significa “qualidade ou estado de feliz; estado de uma consciência plenamente satisfeita; satisfação, contentamento, bem-estar“. Avaliando por esse prisma é possível compreender o que Paulo quer dizer. Ele descreve sua prisão em 1:12-14, onde diz que todo aquele aparente mal se tornara em bênção: a Palavra de  Deus estava sendo pregada àqueles guardas, de tal forma que estava sendo propagada até no palácio de César (o que provavelmente jamais aconteceria ou seria possível se Paulo tentasse um contato direto), além de estar servindo de novo ânimo para que os convertidos pregassem e testemunhassem de Jesus com mais confiança e coragem, o que trazia ao apóstolo aprisionado um “estado de uma consciência plenamente satisfeita”.

A mortificação, com diversas forma de flagelo, é praticada por católicos ao redor do mundo. Nas Filipinas, maior país católico da Ásia, é comum pessoas pedirem para ser crucificadas nos ritos da Sexta Feira da Paixão, na Semana Santa

E tudo isso foi possível mediante o sofrimento. Em 1:21 Paulo chega a dizer que morrer é até mais vantajoso. Nesse ponto, muitas religiões cristãs e pseudo-cristãs usam o argumento do sofrimento, de que é preciso sofrer na carne para alcançar algum tipo de “ascensão espiritual” em Cristo, para se aproximar mais de Deus e do Espírito Santo. Usam, além dos já citados, o versículo 1:29 para tentar corroborar este pensamento: “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele“. Com isso, embasam o ato de se auto-infligir sofrimento físico, incitando as pessoas a peregrinações, penitências de diversas maneiras, flagelação, carregar cruzes ou até mesmo atos extremos como se deixar crucificar, atitude já comum em alguns países de maioria católica, como nas Filipinas, por ocasião de datas como a Sexta Feira da Paixão.  Este tipo de prática, que incluiria o jejum, é chamada pela igreja Católica de Mortificação. Outras referências usadas para justificar tais atitudes são Mateus 16:24, II Coríntios 4:10, Colossenses 1:24, entre outras mais. De acordo com os teólogos católicos, a “dor cristã” proporciona expiação dos próprios pecados, submete a carne ao espírito, desprende a pessoa das coisas terrenas, purifica e embeleza a alma, alcança tudo de Deus, faz da pessoa verdadeiro apóstolo e nos torna semelhantes a Jesus e à Virgem Maria.

A pergunta é: Então, é justo que eu sacrifique a minha carne para expiar meus pecados? Deus se agrada que eu fira meu próprio corpo para justificar a mim mesmo perante Ele? Deus está obrigado a atender minha oração se eu me mortificar?

A Bíblia não afirma nada disso. O sofrimento que Paulo e outros apóstolos e mártires passaram não foi um sofrimento auto-infligido. Eles sofreram por causa do evangelho e por sua fá em Jesus. Não se menciona na Bíblia que Paulo praticou nenhum tipo de flagelo de seu próprio corpo, mas sim que Paulo sofria no corpo as consequências de sua escolha de servir a Cristo, que o obrigava inclusive a vencer o desejo carnal.

Penso que é óbvio que Paulo preferia estar livre daquela cadeia, mas naquele momento era da vontade de Deus que ele estivesse ali. Ele não desejava a morte, mas tinha a convicção de que, quando esta viesse, estaria eternamente com Jesus, o que de fato era muito melhor. Sem falar que nada que façamos na nossa carne pode expiar nossos pecados, somente o sacrifício perfeito de Jesus tem esse poder (Hebreus 9:28 e 10:12). Assim, o sofrimento pelo sofrimento não tem nenhum valor, mas quando encaramos os sofrimentos desse mundo, que são inevitáveis, como oportunidade de expressarmos a vontade de Deus e a vida de Jesus em nossas vidas, o sofrimento passa a ter um sentido espiritual válido.

Anunciando a Jesus por inveja e porfia 

Em 1:14-17 Paulo menciona que sua prisão encorajou tanto pregadores genuínos do evangelho quanto pessoas que pregavam por “inveja e porfia”. É possível que Paulo nem estivesse se referindo a gnósticos ou judaizantes, que eram opositores mais comuns ao apóstolo, mas provavelmente de indivíduos que estavam no seio da igreja que tentavam se equiparar a Paulo, tentando buscar glória e honra para si mesmos. Não é muito diferente dos nossos dias, onde pessoas fundam “denominações” em busca de lucro ou glória própria, ou mesmo irmãos cujo objetivo, infelizmente, é buscar apenas a primazia e a glória pessoal dentro da comunidade.

Mas embora isso entristeça a Paulo, ele reconhece que, seja pelos meios certos ou errados, a pessoa de Jesus está sendo pregada e anunciada.  A palavra de Deus é viva (Hebreus 4:12) e cumprirá o seu propósito (Isaías 55:12), ainda que divulgada de forma errada. É fato que precisamos conhecer a Bíblia para não sermos enredados em qualquer vento de doutrina, mas é o Espírito Santo que realiza a obra de conversão nos corações e Paulo tinha plena convicção disso. Quanto a um ministro que não é congruente com aquilo que prega, Jesus enfrentou isso pessoalmente em seu ministério, na pessoa dos escribas e fariseus, de quem dizia que deveria ser seguido tudo que orientavam, mas não o que praticavam (Mateus 23:2-7).

Linha direta com o Espírito Santo

Podemos ter acesso aos milagres que Jesus fez?

Em João 14:12 há uma promessa de Jesus que é tremenda: podemos fazer obras ainda maiores do que as que Ele fez. Seria de fato possível? Afinal Jesus curou todo tipo de doentes (inclusive leprosos), multiplicou pães, andou sobre as águas, transformou água em vinho, abriu olhos de cegos, ressuscitou mortos… como poderíamos fazer essas coisas?

Era em cima desta questão que os gnósticos tentavam fundamentar seu ensinamento herético. Diziam ser impossível Jesus ser Deus e ser homem ao mesmo tempo pois, se ele era Deus, isso explicava perfeitamente como ele realizava todos os sinais e milagres e ainda podia perdoar pecados, mas era incompatível ser morto numa cruz, pois não faz nenhum sentido um Deus que é todo-poderoso ser morto como um ser humano. Por outro lado, se Jesus era mesmo humano, isso fazia com que a morte na cruz fosse algo bem plausível, mas tornaria os milagres inviáveis, pois ser humano nenhum tem o poder em si de perdoar pecados, curar ou ressuscitar alguém. Com isso, os gnósticos levantavam a bandeira de várias doutrinas hereges, como a de que Jesus seria um Aéon (uma “emanação” ou ser espiritual que manifestava a divindade de Deus, mas não era Deus), um ser híbrido Deus/homem que dividia duas naturezas distintas, ou ainda, um Deus pleno que teria trocado de lugar com um homem no momento de ser crucificado (o “premiado” nesse caso, pasme,  seria Judas, por ter sido o traidor do Mestre).

Embora pareça absurdo em alguns pontos, o argumento gnóstico pode até fazer algum sentido lógico. Afinal, são duas naturezas muito distintas para representarem a mesma pessoa. Mas Paulo nos dá a dica para resolver essa questão:

“Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus. Pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus, antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens, e reconhecido na forma humana, a si mesmo de humilhou, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu um nome que está acima de todo o nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho nos céus,  na terra e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai”. Filipenses 2:5-11

De maneira impecável, Paulo já nos dá a primeira resposta: Sim, Jesus se esvaziou de toda sua divindade para se tornar um homem de carne e osso, sujeito a exatamente TUDO que qualquer um de nós passou ou pode ainda vir a passar. Logo, sendo homem, Jesus é sujeito à morte e o sacrifício na cruz é plenamente crível. Mas e quanto aos poderes miraculosos, sinais e a possibilidade de fazermos coisas tão grandes quanto às que ele fez? Como é possível, se Jesus era apenas um homem, ainda que sem pecado? O que nos temos em comum com Jesus que pode nos conferir tais poderes? Ele mesmo nos dá a resposta:

“E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, o Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque Ele habita convosco e estará em vós”. João 14:16-17

Jesus podia fazer tantos sinais porque estava no centro da vontade do Pai e aberto para o mover poderoso do Espírito Santo. E Jesus não fazia nada de maneira fortuita. Afinal, multiplicar pães, por exemplo, é um bom truque e certamente pode impressionar uma platéia, mas se isso não traz edificação para o Reino de Deus, de nada vale (João 6:14-15). Essa é a semelhança. Quem realiza os milagres é o Deus Espírito Santo que habita em nós e, estando ligados a Ele, na vontade dEle e abertos para sua ação, temos em nós o pleno poder de Deus, que nos permite fazer, sim, tudo aquilo que Jesus fez, desde que sempre para a glória do Pai. Enfim, Jesus sim, era homem, mas podia realizar tudo aquilo pois estava diretamente ligado ao Espírito Santo de Deus. E se Ele mesmo disse que poderíamos fazer tão grandes coisas quanto Ele fez, saiba que isso se dá através do poder do Espírito Santo.

[Breve, capítulos 3 e 4]

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