Filipenses – Parte 2 (aula de 04/09/2011)

Continuando nosso estudo sobre a carta de Filipenses, a camada Carta da Alegria, desta vez abordando parte do capítulo 2 e os capítulos 3 e 4.

Em Filipenses, Paulo fala muito sobre a alegria cristã

Embora Filipenses seja, como já vimos, repleta de saudações e mensagens pessoais, em nenhuma carta Paulo deixa de trazer conselhos e advertências sobre indivíduos que contrariavam ou atacavam a fé.

O querer e o realizar não são nossos

Ruínas do centro da cidade de Filipos. Ao fundo, a "Basílica de Paulo"

Em 2:13, Paulo afirma que é Deus quem opera “tanto o querer quanto o realizar”. Em outras palavras, tudo aquilo que fazemos está sob a vontade (o querer) e permissão (o realizar) de Deus e nada que fazemos acontece fora da Sua vontade. Mas sendo assim, o que acontece com o livre arbítrio, em que Deus nos dá a opção de decidirmos o que acontece em nossas vidas? Sendo assim, devemos deixar tudo acontecer, sem tomar nenhuma atitude, já que é Deus quem decide e realiza tudo?

É importante situar que estamos sim, sujeitos à vontade de Deus e nada podemos fazer sem que Ele permita. Deus é soberano e age como quer. Entretanto, o próprio Deus também deixa com que façamos as coisas segundo nosso próprio querer, DESDE que estejam dentro daquilo que chamamos de vontade permissiva de Deus. Em outras palavras, nosso livre arbítrio está dentro dessa vontade permissiva. Deus permite certos eventos para levar a outros, seja a curto, médio ou longo prazo, mas a sua santa vontade será feita. Isso pode parecer estranho num primeiro momento, mas devemos nos lembrar que Deus é onisciente (sabe de todas as coisas), onipotente (tem o poder de realizar qualquer coisa que assim desejar), onipresente (está em todo lugar) e eterno (existe, existirá e sempre existiu; transcende o tempo).

Usemos um exemplo do próprio Paulo. Em Atos 16:6, durante a Segunda Viagem Missionária, vemos que era intenção do apóstolo seguir para a Ásia, mas vários empecilhos frustraram seu plano. Veja que a intenção de Paulo era boa e legítima, de pregar a Palavra e plantar novas igrejas. E mais, a Bíblia afirma categoricamente que quem os impediu foi o próprio Espírito Santo! A fim de que a vontade soberana de Deus se cumprisse, Paulo deveria ir para outro lugar. Sendo o apóstolo tão obstinado, Deus lhe manda um sonho (At. 16:9-11) para que entendesse que deveria mudar de rumo e seguir para a direção oposta (Macedônia). Em outras palavras, a vontade de Paulo era uma, mas a vontade de Deus foi soberana sobre a de Paulo e fez com que ele cumprisse aquilo que o Senhor desejava. Curiosamente, essa mudança de planos levou Paulo justamente a Filipos (At. 16:12). Podemos imaginar que talvez essa carta nunca viria a ser escrita se Paulo não tivesse passado ali, mas foi da vontade de Deus que tudo isso acontecesse, para nosso crescimento e esperança (Romanos 15:4). Mesmo que nos pareça estranho, precisamos nos lembrar, entender e aceitar que a vontade Deus é boa, perfeita e agradável, muito mais que a nossa (Romanos 12:2).

Qual o problema com os cães?

Por que "cães" seria um termo pejorativo?

Como vimos no estudo anterior, Paulo enfrentava falsas doutrinas difundidas tanto por gnósticos quanto judeus ou cristãos judaizantes. Em 3:2, Paulo usa um termo diferente para designar alguns desses falsos mestres. O termo é “cães”. E por incrível que pareça, isso não é nenhum tipo de corruptela de traduções, pois no original o termo aplicado é exatamente esse. Bem, no nosso contexto atual, é de se estranhar, pois nossa noção sobre os cães é de animais de estimação, domesticados, muitas vezes dóceis e companheiros. Por que tomar cuidado com esse tipo de animal tão simpático e companheiro? De que forma isso pode ser um termo negativo?

Nas cidades da Ásia Menor e palestina, especificamente à época neotestamentária, o cão ainda não era um animal domesticado. Andavam em bandos, circundando as cidades e se alimentavam de cadáveres, inclusive humanos. Eram animais sujos, que traziam doenças e atacavam pessoas. Além disso, todo animal que se alimentava de carniça era considerado impuro pelo judeu. Chamar alguém de “cão” em Israel era uma ofensa extremamente pejorativa e desagradável, o que podemos confirmar em diversas referências, especialmente no Antigo Testamento (I Sm. 24:14, II Sm. 9:8, Sl. 22:20, Is. 66:3). Assim, nominando-os como “cães”, Paulo usa de um certo sarcasmo para se referir aos judaizantes.

Muitos desses líderes criam que seguir a lei mosaica à risca era a garantia de que estavam fazendo a vontade de Deus e, por isso, sendo “mais santos” que os que não seguiam essa lei, como os gentios que se convertiam a Jesus. Tentavam submetê-los a ritos cerimoniais, inclusive a circuncisão. Paulo inclusive ressalta que, se de fato isso tinha algum valor, ele seria a pessoa mais indicada para ser um agraciado de Deus, pois sempre seguiu a lei com todo rigor (3:4-6), mas passou a considerar tudo isso como perda e mesmo lixo (3:7-8) quando, pela conversão, entendeu que a justificação do homem vem pela sua fé no filho de Deus (3:9).

Os Inimigos da Cruz

Não haviam problemas apenas com gnósticos e judaizantes em Filipos. Paulo também encontrou pessoas que não estavam de fato servindo a Deus (3:17-19). Pessoas cujo único interesse era manter a si mesmos, a sua própria satisfação pessoal e os prazeres desse mundo. Eram indivíduos que, no final, pensavam usar a igreja como forma de status, sempre com idéias de buscar apenas as coisas desse mundo, em detrimento de sua aparência piedosa.

Vejam que estamos falando de uma comunidade cristã de quase 2000 anos atrás, mas o assunto abordado é pujante nos nossos dias. Pessoas que vivem e pregam que, se Jesus é o rei, somos todos príncipes e que Deus, por isso, se torna obrigado (!) a nos dar imediatamente tudo que pedimos. Seitas que pregam que, se você aceitou Jesus, acaba de receber uma espécie de “santa vacina” e estará livre de todos os dissabores que são comuns à vida neste mundo. Deus seria então nosso mantenedor, para nos prover uma vida de luxo neste mundo pois, afinal, “eu sou filho do rei”! Avaliando friamente, pensar assim é um franco absurdo, bastando considerar o sacrifício de Jesus, que ao nos oferecer salvação já nos proveu de muito mais do que merecemos.

A Palavra de Deus não promete nenhuma dessas coisas. A grande promessa da salvação diz respeito à nosso Senhor Jesus, com quem nos encontraremos ao findar essa vida terrena, na cidade que ele mesmo preparou (3:20), e que seremos revestidos de um novo corpo, tal qual ele foi revestido em Sua ressurreição (3:21). Hoje existem muitos que professam heresias como a Teologia da Prosperidade, que prega que Deus existe para dar só coisas boas a seus filhos e, se elas não estão vindo, temos que exigir dEle.

São o mesmo tipo de pessoas que difundem isoladamente um dos versículos mais mal-interpretados da Bíblia:

“Tudo posso Naquele que me fortalece”

As cadeias romanas eram subterrâneas e absolutamente insalubres. Paulo chegou a ser encarcerado numa delas em Filipos, mas nem isso minou sua alegria em Jesus

Filipenses 4:13. Esse é um dos versículos que mais se vê por aí, nos mais diversos locais, de carrocerias de caminhão a escritórios de grandes empreendedores. Sem uma análise contextual, podemos inferir que Paulo está afirmando que pode fazer qualquer coisa se Jesus já o recebeu como servo. E se isso continua valendo para nós, podemos qualquer coisa em Jesus. Assim, se eu ainda não tenho a riqueza que sempre quis, a Ferrari com que sempre sonhei, o emprego mais bem pago, o status social mais elevado, a cura ou imunidade a qualquer doença, significaria que ou eu ainda não aceitei a Jesus de fato ou que a Bíblia falhou nesse versículo?

Na verdade, o contexto é importantíssimo nesse texto. Vejamos o texto a partir do versículo 10 até o 13:

“Alegrei-me, sobremaneira, no Senhor porque, agora, uma vez mais, renovastes a meu favor o vosso cuidado; o qual também já tínheis antes, mas vos faltava oportunidade. Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece.”

Este é o verdadeiro sentido de poder todas as coisas. Independente das circunstâncias, seja de abundância ou de necessidade, seja de riqueza ou pobreza, seja de exaltação ou humilhação, Jesus nos dá a capacidade de a tudo resistir e suportar por amor, para o testemunho e para o engrandecimento do seu nome. Ao contrário do que propagam hoje (e sempre propagaram), é impossível comprar a Deus com dinheiro, bens ou favores. Não estamos numa armadura de imunidade contra o mundo e todo tipo de perseguição e dissabores porque aceitamos a Jesus como Senhor, muito pelo contrário! Jesus mesmo disse isso (Jo. 16:33). Epafrodito, irmão da igreja de Filipos, adoeceu mortalmente e só foi curado pela misericórdia de Deus (Fp. 2:25-30). O próprio Paulo estava aprisionado na ocasião desta carta e já havia passado por todo tipo de castigo e punição (II Co. 11:23-28). Assim, podemos entender que o “tudo poder” a que Paulo se refere diz respeito ao ânimo e ao desejo de tudo fazer para a glória de Deus, independente de uma situação de bem-estar.

Li essa semana, no blog Café com Deus, do pastor Luciano Maia, um interessante trecho de um artigo sobre o sofrimento humano e que tem muito a ver com nosso estudo:

Cinco lições práticas que podemos extrair do sofrimento

1. Situações graves fazem nos aproximar de Deus – Ele quer que fiquemos pertinho Dele.

2. Situações insolúveis esmagam nossa vaidade e orgulho e nos tornam humildes diante da vida, dos semelhantes e de Deus.

3. Situações de dor amolecem nosso coração e permitem que compreendamos a dor dos outros.

4. Situações extremas nos forçam refletir sobre nossos valores existenciais e espirituais.

5. Nas situações sem solução, quando solucionadas, damos o mérito e reconhecimento a Deus (milagre) e não a nós mesmos, por isso, aumentamos nossa fé.

Uma boa semana e até o próximo estudo!

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Para Finalizar:

  • Filipenses é a chamada “Carta da Alegria” por Paulo fazer menção a esse sentimento em vários versículos, muito mais vezes até do que em epístolas maiores. De acordo com o Dr. Russel Shedd, há 16 referências à alegria na carta, entre verbos, substantivos e adjetivos, seja a palavra “alegria” diretamente ou sinônimos, como “regozijo”. Você pode encontrar nos versículos 1:4 / 1:18 / 1:25 /1:26 (“vos gloriardes”) / 2:2 /2:16 (“me glorie”) 2:17 /2:18 /2:28 /2:29 /3:1 / 3:3 (“nos gloriamos”) / 4:1 / 4:4 / 4:10 / 4:11.
  • A cidade de Filipos atualmente é apenas um sítio arqueológico e ponto turístico de visitação. Conforme a história e as escavações, foram encontrados indícios de adoração a deuses gregos, trácios, orientais e até egípcios, o que não é de se admirar, já que a cidade era uma metrópole e consequentemente atraía pessoas de todas as partes. A cidade prosperou e, até o século 6, já tinha sete igrejas cristãs construídas.
  • O mosaico do bispo Porfírius, encontrado no local onde seria o soalho da maior igreja cristã da cidade, a "Basílica de Paulo"

    Um terremoto por volta do ano 619 arrasou parte da cidade e diminuiu sua importância, já que o império romano havia se esfacelado. Em 838 a cidade foi tomada pelos búlgaros e até mesmo pelos francos durante a Quarta Cruzada, mas foi definitivamente abandonada no século 14.  As escavações de suas ruínas indicam a presença de uma basílica junto ao centro da cidade, além de um mosaico que constava o nome de Paulo no chão da basílica, feito por Porfírius, bispo da cidade, por volta de 343.

  • Temos disponíveis na livraria da Oitava pelo menos duas mensagens do pastor Jeremias Pereira baseadas em Filipenses: “Santos da Casa de César”, baseado em 4:21-22, e “Evódia e Síntique – Choque de temperamentos”, sobre Filipenses 4:2-1. Recomendamos!

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