II Timóteo – Parte 1 (aula de 02/10/2011)

II Timóteo é a última das 3 epístolas pastorais e possivelmente a última carta ou livro escrito por Paulo, durante o segundo aprisionamento em Roma. Dessa vez, a situação é mais crítica e é notável que o apóstolo não tem grande esperança de libertação, diferente da primeira. Mas mesmo assim, Paulo encontra forças para incentivar Timóteo no seu ministério e para dar novas orientações doutrinárias.

Timóteo com sua avó Loide (quadro de Rembrandt)

Acompanhe conosco mais esta aula, na carta final do grande apóstolo.

O incêndio de Roma e a perseguição de Nero

Busto de Nero, o imperador romano que iniciou a perseguição aos cristãos (Museu Nacional de Oslo)

O império romano unificado e mantido em paz pela invencível legião era terreno fértil para a difusão do evangelho. A unificação da língua (grego), a facilidade de locomoção através das estradas e a liberdade de culto foram elementos facilitadores para que todo cristão disposto a pregar a palavra pudesse ir às mais diversas regiões, inclusive à capital, Roma, onde uma igreja se estabeleceu, superando em importância a de Antioquia, que fora a “base central” da igreja primitiva. O cristianismo era visto inicialmente como uma variação do judaísmo, porém as autoridades romanas logo notaram que haviam diferenças fundamentais, sendo uma delas a rejeição tanto do judaísmo tradicional quanto qualquer culto greco-romano. Ao mesmo tempo em que isso chamava a atenção e convertia a muitos, criava uma celeuma com o estado romano, que preferia religiões que aceitassem elementos de outras crenças.

Mas o impulso fabuloso da igreja cristã em Roma certamente se deu pela colaboração de dois homens: Pedro, o discípulo de Jesus, e Paulo, o “apóstolo dos gentios”. A presença de Pedro em Roma é um elemento de tradição, já que não há relatos bíblicos ou históricos sobre isso, mesmo não sendo nada de mais o apóstolo estar presente na capital do grande império a fim de pregar a palavra. Já sobre Paulo, há evidências históricas de sua presença em Roma, desde seu primeiro aprisionamento, sua libertação e seu cativeiro final.

Na noite de 18 de Julho do ano 64 dc, Roma é flagelada por um incêndio de enormes proporções, que destruiria dois terços da cidade. A calamidade se estendeu por 6 dias seguidos e, quando parecia debelada, surgiam novos focos. No total, o incêndio durou cerca de 9 dias. Nero, o imperador na ocasião, estava fora da cidade e retornou rapidamente ao ser avisado. Mas nem isso impediu que ele se tornasse o principal suspeito pela tragédia, devido ao fato de ele próprio comprar a preço vil diversas áreas onde antes haviam residências para construir novos palácios e outras obras. O fogo também destruiu o templo de Júpiter e o lar das sacerdotisas Vestais, locais pagãos para os judeus e cristãos. É possível que alguns cristãos mais fundamentalistas tivessem ido às ruas imbuídos de conceitos apocalípticos e com acusações de que a calamidade seria um castigo pelos pecados daquela urbe. Se ocorreu ou não, o fato é que Nero se valeu da suposta intolerância dos cristãos para realizar uma manobra política.

O incêndio de Roma (quadro de Robert Hubert)

Para desviar as acusações de sobre si, Nero imputou os cristãos como responsáveis pelo incêndio e jurou perseguir e matar a todos eles. Muitos foram mortos nas arenas, vítimas dos leões e de cães. Outros tantos Nero mandou crucificar e queimar, iluminando as estradas romanas. Em meio a esse ambiente hostil, Pedro foi capturado e martirizado, sendo crucificado de cabeça para baixo por volta de 13 de Outubro daquele mesmo ano. Paulo também foi capturado e preso, mas sua condição de cidadão romano certamente o livrou de ser julgado e penalizado como um preso comum. Em II Tm 4:17 Paulo diz que foi livrado “da boca do leão”. Embora alguns pensem se tratar de uma figura de linguagem, é possível que fosse literal, já que um cidadão romano não poderia ser submetido a esse tipo de pena.

A maior dor de Paulo, contudo, é ter sido abandonado por seus pares (1:15-18). É bom lembrar que nessa situação, ser associado ao preso de qualquer forma poderia tornar a pessoa cúmplice de seus crimes. É nesse contexto que encontramos Paulo em II Timóteo: Preso, abandonado pelos seus companheiros e no corredor da morte. Timóteo estava pastoreando a igreja de Éfeso. E mesmo nessa situação tão hostil, Paulo não deixa de saudar e orientar seu filho espiritual na direção da igreja e na vida prática.

O Culto começa em casa

É fato que Paulo e Timóteo não eram apenas irmãos em Cristo e não somente professor e aluno, mas grandes amigos. Dá a entender que sua última despedida havia sido emocionante e mesmo com lágrimas (1:4). Logo, fica óbvio que Paulo conhecia bem a Timóteo, consequentemente a sua família também, de forma que nos traz uma informação adicional interessante sobre seu discípulo e amigo. Em 1:5 ele se refere a Lóide e Eunice, respectivamente avó e mãe de Timóteo. Em Atos 16:1-3 vemos a menção de que todos davam “bom testemunho” de Timóteo e aqui entendemos que esse bom testemunho foi engendrado em casa. Não há menção do pai de Timóteo, mas é certo que Eunice, junto com Lóide, trabalhou o filho para entender as escrituras, conhecer e amar a Deus, dar bom testemunho, não se envergonhar de ser um servo de Deus. Isso nos mostra que os responsáveis pelo caráter espiritual dos filhos são os pais e é responsabilidade deles ensinar os filhos o “caminho em que devem andar” (Provérbios 22:6).

O culto doméstico é uma instituição importante da família cristã. A conversão de muitas pessoas começa em casa

Sou de uma família em que o hábito é de realizar o “culto doméstico”. Não sei se você já participou ou ouviu falar desta prática. É um momento onde nos reuníamos para ler a bíblia, orar e louvar juntos, como família. Naquela hora, podia desabar o mundo que meus pais não abriam mão, deveríamos deixar tudo, esquecer o telefone, a campainha, tudo mesmo, para ligar apenas com Deus e Sua palavra. Tenho que dizer que se hoje sou salvo em Jesus, isso se deve ao culto doméstico. Quase todos os versículos que sei de cor vieram daqueles momentos de comunhão dentro de casa. Precisamos ter em mente que a criação de filhos exige que empenhemos tempo e dedicação com eles para estudo da Bíblia, oração e louvor a Deus. Na sociedade atual, os pais cada vez mais insistem no erro de atribuir a formação dos filhos (não só espiritual, mas até mesmo moral e cívica) à igreja, à escola, aos professores, se esquecendo de que o real exemplo de vida deve vir deles. Paulo também ressalta isso em 1:3, mencionando que serve a Deus “desde meus antepassados”, ou seja, Paulo pode ser o grande apóstolo porque seu povo, os judeus, tinham essa cultura de transmitir conhecimento da Lei de Deus e, a partir da compreensão que Cristo é o cumprimento da promessa, a lei não é apenas cumprida, mas complementada. Essa herança espiritual do bem deve ser passada e retransmitida às futuras gerações até a volta do Senhor Jesus.

Destruindo a morte

Existem algumas passagens bíblicas onde, para melhor compreensão, é preciso recorrer a mais de uma tradução. Não que exista erro, mas uma confusão na adaptação para nossa língua, devido a termos que podem levar a um sentido dúbio ou mesmo direcionar a uma confusão. E foi o que fiz ao ler 1:10, que diz o seguinte:

“E que [a graça de Deus] é manifesta agora pela aparição de nosso Salvador Jesus Cristo, o qual destruiu a morte, e trouxe à luz a vida e a incorrupção pelo evangelho”.

Se Jesus destruiu a morte, por que continuamos a morrer?

Como assim “destruiu a morte”?

No texto original, o termo é exatamente esse. Uma ou outra tradução usa o termo “aboliu”, mas o final continua sendo o mesmo. Na verdade, não significa que nos tornamos imortais nessa terra. Em seu sacrifício, Jesus venceu a morte e ressuscitou, nos prometendo vida eterna. Mas a destruição da morte não diz respeito à nossa existência nesse mundo. Jesus neutralizou o poder da morte de colocar um ponto final na nossa existência, pois nos prometeu um corpo incorruptível e uma vida eterna com Ele em seu reino.

Mas se Jesus foi quem destruiu a morte, o que dizer daqueles servos de Deus que morreram antes da vinda do Messias? A morte terrena foi o fim de tudo para eles?

É bom lembrar que nosso ponto de vista é humano, logo, linear e temporal. Deus, contudo, é o Senhor do tempo e da história. Deus é eterno, logo, o sacrifício de Jesus foi planejado na eternidade e para a eternidade. Nessa visão eterna, não há tempo e espaço. O sacrifício de Jesus para a salvação da humanidade extrapola nossa existência finita nesse mundo.

Em 1:12, há uma alegoria a respeito da vida eterna:

“(…) porque eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia”.

O tesouro é do Senhor. É Ele quem guarda, não nós, para que tenhamos acesso apenas naquele dia, quando nos encontraremos com Jesus na vida eterna.

Afiado na Palavra, mas evitando discussões

Nem no fim da vida Paulo deixou de combater as heresias que se levantavam. Timóteo pastoreava a igreja de Éfeso e, pelo visto, os hereges também estavam lá, outra vez na pessoa dos gnósticos.

A maioria dos gnósticos misturava paganismo helênico com o evangelho pregado pelos cristãos. Na cultura grega, era apreciado o discurso eloquente, artifício muito usado pelos sofistas, que rejeitavam qualquer verdade absoluta. Para eles, a “verdade” deveria apontar para o que era vantajoso no momento. Assim, tanto para sofistas quanto gnósticos, o domínio verbal e o argumento convincente, ainda que se tratassem de falácias, eram de grande consideração, pois seu objetivo era mesmo “subverter os ouvintes” (2:14). E no caso em específico a situação ainda era mais complicada, pois tudo indica que a heresia começou no seio da igreja. Dá a entender que dois irmãos participativos da igreja de Éfeso, Himeneu e Fileto, começaram a misturar a doutrina cristã com elementos gnósticos, com isso corrompendo os valores da palavra de Deus.

A preparação na Palavra é nossa responsabilidade como servos de Deus

Mas a instrução de Paulo é clara: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem do que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2:15). O discurso dos gnósticos era baseado na oratória eloquente, mas os servos de Deus deviam fazer a sua parte buscando instrução na Palavra, conhecendo-a  para, uma vez aprovados pelo Senhor, receberem do Espírito Santo o que haveriam de dizer (Mateus 10:19). É patente quão importante é o estudo da Bíblia, já que os adversários ou contestadores vão se preparar para nos contradizer. O Espírito Santo usará com poder aquele que se abrir para sua ação, e isso pode ser alcançado na busca em oração e no estudo da Palavra.

Apesar desta instrução, Paulo sabia que não compensava expor a igreja a falatórios que não serviam para a edificação. O objetivo da preparação na palavra não dizia respeito a uma “diaputa” de egos ou discursos, mas sim estar pronto para quando a exortação fosse necessária. Segundo a orientação do apóstolo, o servo de Deus deve tratar a todos com brandura, estar preparado para ensinar sobre a Palavra, ser paciente e manter a mansidão até ao confrontar os que se lhe opõe, na esperança de que Deus, através deste exemplo, conceda arrependimento para que conheçam e entendam a verdade e sejam livres do laço do Diabo (2:24-26).

[Breve, parte 2]

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