Purgatório – Porque o negamos

Esta pergunta foi formulada pela aluna Geralda Francisca, durante as aulas do terceiro módulo de 2011, por ocasião do estudo sobre a carta paulina de II Timóteo, em vista das questões abordadas sobre A Ressurreição. Vejamos de onde surgiu essa doutrina e qual o argumento católico para sustentá-la.

A doutrina do Purgatório é um dos dogmas católicos mais conhecidos e contestados pela igreja protestante

Origem Judaica

A Bíblia católica possui alguns livros a mais do que a protestante no Antigo Testamento. Isso porque os próprios líderes judeus do primeiro século rejeitavam estes livros como inspirados por Deus, embora os considerasse como escrituras de tradição ou com valor histórico. São os chamados livros apócrifos, sendo eles Tobias, Judite, Sabedoria, Baruc, Eclesiástico, I e II Macabeus, além de acréscimos nos livros de Ester (13 versículos a mais no capítulo 10) e Daniel (capítulos 13 e 14, acréscimos no capítulo 3). Estes livros não constam nas nossas Bíblias pelo mesmo motivo, não são considerados “canônicos”, com inspiração divina, trazendo em seu conteúdo algumas heresias.

E é justamente num deles que vamos encontrar uma das bases da doutrina do Purgatório. II Macabeus conta a história da revolta dos judeus contra o rei selêucida Antíoco Epifânio, que dominou a região da judéia por um período e pretendia eliminar o culto judaico, além estabelecer um culto de adoração pagã em Jerusalém,  profanando para isso o próprio local de adoração a Deus, o Templo. Nessa história, é relatado um episódio onde Judas Macabeu, o maior líder desta revolta, pratica um ato de oração pelos mortos:

O livro de Macabeus é usado na defesa da prática da oração pelos mortos

“No dia seguinte, Judas e seus companheiros foram tirar os corpos dos mortos, como era necessário, para depô-los na sepultura ao lado de seus pais. Ora, sob a túnica de cada um encontraram objetos consagrados aos ídolos de Jânia, proibidos aos judeus pela lei: todos, pois, reconheceram que fora esta a causa de sua morte. Bendisseram, pois, a mão do justo juiz, o Senhor, que faz aparecer as coisas ocultas, e puseram-se em oração, para implorar-lhe o perdão completo do pecado cometido. O nobre Judas falou à multidão, exortando-a a evitar qualquer transgressão, ao ver diante dos olhos o mal que havia sucedido aos que foram mortos por causa dos pecados. Em seguida, fez uma coleta, enviando a Jerusalém cerca de dez mil dracmas, para que se oferecesse um sacrifício pelos pecados: belo e santo modo de agir, decorrente de sua crença na ressurreição, porque, se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles. Mas, se ele acreditava que uma bela recompensa aguarda os que morrem piedosamente, era esse um bom e religioso pensamento; eis por que ele pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres de suas faltas”. (II Macabeus 12:39-46)

O próprio autor do texto exalta a pessoa de Judas por esta atitude, dizendo ser muito piedoso o que ele fez ao mandar uma oferta enquanto oravam pelos mortos, na esperança de que seus pecados fossem perdoados. Lembre-se: este relato consta num livro APÓCRIFO, que nem os judeus reconhecem como canônico.

Gregório I e a base doutrinária

Gregório I foi o papa que trouxe a doutrina do Purgatório para o cerne da igreja

Gregório I foi o 64º a exercer o papado em Roma. Diz-se que era um homem bastante carismático e dedicado à obra da Igreja. Promoveu diversas reformas doutrinárias e da ordem do culto, criou o canto Gregoriano, retomou o trabalho de evangelização com o envio de missionários, listou os 7 pecados capitais (soberba, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e preguiça) e escreveu intensa obra literária sobre a Bíblia, de sermões a complexos comentários. Em sua humildade, recusou o título de “Papa Ecumênico” e preferiu a alcunha de “Servo dos servos de Deus”.

Contudo, este líder importante acreditava e pregava sobre a doutrina do Purgatório. Segundo Gregório, este seria um lugar onde as pessoas deviam ser purificadas de seus pecados pelo fogo antes de terem acesso ao Céu e à presença de Deus, uma vez que o homem em pecado não pode ter acesso a Ele. Vão para o Purgatório aquelas pessoas que estavam em “amizade” com Deus, porém com pecados passíveis perdão, a fim de que sejam pagos estes pecados através do sofrimento da alma. Gregório dizia:

“No que concerne a certas faltas leves, deve-se crer que existe antes do juízo um fogo purificador, segundo o que afirma aquele que é a Verdade, dizendo que se alguém tiver pronunciado uma blasfêmia contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado nem no presente século nem no século futuro. Desta afirmação podemos deduzir que certas faltas podem ser perdoadas no século presente, ao passo que outras, no século futuro” 

Nesse trecho, ele faz referência ao texto de Mateus 12:31-32, que diz o seguinte:

“Portanto, eu vos digo: Todo o pecado e blasfêmia se perdoará aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada aos homens. E, se qualquer disser alguma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-á perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro

O Purgatório seria um lugar de tormentos como o inferno, porém com o intuito de purificar almas de verdadeiros salvos

Gregório entendeu o termo “século” como um plano existencial e que Jesus teria inferido que, desde que não se trate de blasfêmia contra o Espírito Santo, há uma possibilidade de perdão tanto nesse plano de existência quanto após a morte. Seria uma segunda chance para aqueles que amavam a Deus, porém não integralmente. Exatamente por isso, não é possível sentir qualquer felicidade no Purgatório, pois isso só acontece após a purificação, quando a alma finalmente é encomendada a Deus. Ainda baseado no texto de II Macabeus, a Igreja Católica diz que os vivos podem fazer algo para diminuir a pena das almas que estão no purgatório, na forma de rezas pelos mortos, comparecimento a missas e ofertas (as chamadas indulgências). Tudo isso faria com que o tempo de pena de uma pessoa no Purgatório fosse reduzido.

A doutrina do Purgatório e suas definições dogmáticas foram proclamadas nos concílios de Lyon (1274), Florença (1438-1445) e sacramentadas de vez no concílio de Trento (1545-1563). No Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, uma versão sintetizada no formato de perguntas e respostas, publicado pela primeira vez em 2005, traz o seguinte sobre o Purgatório:

210. O que é o purgatório?

O Purgatório é o estado dos que morrem na amizade de Deus, com a certeza de sua salvação eterna, mas que ainda têm necessidade de purificação para entrar na felicidade do Céu.

211. Como podemos ajudar a purificação das almas do purgatório?

Por causa da comunhão dos santos, os fiéis que ainda são peregrinos na terra são capazes de ajudar as almas do purgatório, oferecendo orações em sufrágio por eles, em especial o sacrifício eucarístico. Eles também os ajudam dando esmolas, indulgências e obras de penitência.

Outros textos bíblicos geralmente usados como argumento para a existência do Purgatório são:

“Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e te encerrem na prisão. Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali enquanto não pagares o último ceitil”. Mateus 5:25-26. Este texto converge com a doutrina do purgatório, em alusão a um aprisionamento que não dura para sempre.

“A obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo”. I Coríntios 13:13-15. O fogo seria uma alusão às chamas da purificação no purgatório, que deixarão na alma somente aquilo que é precioso aos olhos de Deus.

E é claro que na era medieval o pagamento de indulgências foi algo bastante conveniente, pois a igreja tinha que manter sua estrutura em funcionamento. Diversos mosteiros, igrejas e basílicas foram construídas com essas ofertas. A venda de indulgências se tornou algo tão absurdo e vulgar que seria contestada pelo então monge Martinho Lutero nas suas 95 Teses.

O que a Bíblia diz

A Palavra de Deus é clara a respeito de nossos pecados, do preço a ser pago e de nosso destino após a morte.

Na história do rico e o lázaro, além de não se mencionar o Purgatório, fica claro que não há segunda chance

Só existem dois destinos, Céu e Inferno, e eles são definitivos. Em Lucas 16:19-31 temos um relato contado por Jesus sobre um rico e um miserável que, após suas respectivas mortes, são levados para seus destinos, o rico para o Inferno e o lázaro para o Céu. Não há um estado intermediário. Além disso, se afirma que não há a possibilidade de mudança (v.25, 26). ” Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; (…) E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna”. (Mateus 25:41 e 46)

Se nossas obras é que tiram as almas do Purgatório, o sacrifício de Jesus não tem valor. A maior dádiva que recebemos ao aceitar Jesus como Senhor e Salvador é justamente o perdão dos pecados em caráter total. “Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus. Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus”. (Romanos 3:24-26)

Após a morte vem o julgamento, o momento de comparecermos diante de Deus. Depois da morte, esta sina já está traçada e é definitiva. “E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo” (Hebreus 9:27)

Nenhuma obra ou soma em dinheiro garantem a salvação.

Não somos capazes de salvar ou justificar a nós mesmos, quiçá a outras pessoas. Apenas a fé pessoal em Jesus é a garantia de salvação completa. “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie.” (Efésios 2:8-9)

Nada que façamos pode cobrir nossos pecados. Somos todos dignos de morte, mas Deus, em sua bondade, enviou Jesus para que pudéssemos ser salvos gratuitamente. “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor”. (Romanos 6:23)

Enfim, existem inúmeras referências na Bíblia que refutam a existência do Purgatório. Devemos entender que só a fé em Jesus é que pode nos dar garantia de vida eterna com ele no Céu. Só temos uma oportunidade de salvação e ela está diante de nós, aqui, neste mundo, enquanto temos vida, pois após a morte nosso destino já está selado.

E o Limbo?

O Limbo seria um lugar sem tormentos, mas também sem a salvação completa e garantida ("Limbo" - quadro de Domenico)

O Limbo seria um outro tipo de estado intermediário entre o céu e o inferno. Diferente do Purgatório, não seria um estado de sofrimento e chamas, mas um local de felicidade incompleta, pois não haveria ainda a presença plena de Deus, como no Céu. Seria um lugar para onde iriam as almas consideradas inocentes que, sem terem cometido pecados mortais, estariam para sempre privadas da presença de Deus, pois seu pecado original não teria sido submetido à remissão através do batismo. Iriam para o limbo, por exemplo, as crianças não-batizadas e as almas justas que teriam vivido antes da existência terrena de Jesus Cristo, como os Patriarcas, Moisés e os profetas.

Imaginar um limbo patriarcal é negar o conceito de Eternidade. Na nossa concepção de tempo linear, Jesus deu sua vida por volta do ano 33 da era cristã. Mas no conceito da Eternidade, Jesus deu a sua vida por todos. Os Patriarcas morreram na fé de que Deus cumpriria a sua promessa feita ainda no Éden (Genesis 3:14-15). Todo aquele que serviu a Deus com integridade de coração antes da vinda de Jesus é salvo pela fé nas promessas de Deus. Para a Eternidade, não existe tempo e espaço, mas o fato. E nesse prisma, Jesus morreu pela salvação de todos.

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Bibliografia:

  • Os Cem Acontecimentos Mais Importantes da História do Cristianismo (Vários autores – Ed. Vida)
  • gotquestions.org
  • http://www.vivos.com.br/19.htm
  • Professor Felipe Aquino – Blog Canção Nova
  • Bíblia Ave Maria on line
  • Compêndio do Catecismo da Igreja Católica (2005)
  • Wikipedia

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