Período Interbíblico – O domínio egípcio, os selêucidas e a “Abominação Desoladora” (parte 2)

Continuando o estudo sobre período interbíblico, acompanhe mais esta etapa de Israel, agora pós dominação grega, numa fase de confrontos sangrentos pela hegemonia religiosa da nação, em eventos preditos pelo profeta Daniel cerca de 500 anos antes, além da primeira tradução da Bíblia hebraica para outra língua e do surgimento de partidos politico-religiosos, como Fariseus e Saduceus.

Antioco Epifanio

Busto de Antíoco Epifânio

Apenas relembrando: Caso este estudo seja útil a você, fique à vontade para utilizar o conteúdo, tendo a boa fé de citar este blog como fonte, bem como a bibliografia, disponível na última parte deste conteúdo. Bom proveito.

Domínio Egípcio (dinastia dos Ptolomeus)

Após a morte de Alexandre, seus principais generais guerrearam entre si para repartir suas conquistas. Ptolomeu era o sátrapa de Alexandre no Egito e conseguiu tomar posse desta parte do reino por volta de 312 AC. Deu a si mesmo o título “Sóter” (Salvador ou Sábio) e estabeleceu uma dinastia que perduraria firme até por volta de 198 AC, quando começaria a perder territórios para os adversários, em especial, os selêucidas. Embora Ptolomeu Sóter fosse um guerreiro de respeito, não sabia ser tão político como seu antecessor e logo começou a levantar pequenas intrigas nas terras conquistadas, aumentando impostos e colocando a si mesmo como deus (Faraó Sóter). Apesar dessa falta de tato, não interferiu nos aspectos religiosos dos judeus e até mesmo convidou-os para formar uma colônia judaica no Egito, especificamente em Alexandria, cidade egípcia fundada pelo próprio Alexandre e que viria a se tornar o maior centro de ciência e filosofia da antiguidade. Ptolomeu Sóter morre em 283 AC e, até então, os judeus permaneciam gozando de certa paz.

O sucessor de Sóter, Ptolomeu Filadelfo, assume o trono em 281 AC. Filadelfo era um homem menos guerreiro e mais filósofo, o que o levou a enriquecer a biblioteca de Alexandria com o máximo de livros que pudesse conseguir, chegando a manter mais de meio milhão de obras na biblioteca, entre elas uma tradução para o grego da Lei dos Judeus, que conhecemos como Antigo Testamento, tradução esta que ficou conhecida como Septuaginta (LXX), numa época onde a presença judaica em Alexandria resultou em grande prestígio para os judeus diante do imperador. No governo de Filadelfo começam as chamadas Guerras Sírias, onde selêucidas e ptolomeus disputam territórios sírios e circunvizinhanças, o que inclui a palestina.

Morre Filadelfo em 246 AC e assume Ptolomeu Evergeta no mesmo ano, já entrando na terceira Guerra Síria. Evergeta consegue não somente sustentar seus territórios mediante os selêucidas como também levar a dinastia ptolomaica a seu apogeu, chegando a pressionar com seus exércitos o rei Seleuco II, às portas de Babilônia. Contudo, seu sucessor, Ptolomeu Filopátor, matou seus pais para assumir o trono em 221 AC. Durante seu reinado, pela primeira vez os selêucidas tomaram o território da Palestina das mãos do Egito, através de Antíoco III (Antíoco Magno), que passou de 221 AC a 217 AC em Jerusalém, usando a cidade como seu quartel-general durante a quarta Guerra Síria, mas foi derrotado por Filopátor na Batalha de Ráfia e Israel foi devolvida ao domínio egípcio. Anos depois, em 200 AC, já no reinado de Ptolomeu Epifânio, que era apenas um infante (uma criança com cerca de 10 anos de idade), Antíoco se aproveitou da instabilidade da corte egípcia, já que seu rei dependia de conselheiros e tutores, retomou territórios perdidos e também anexou novos, como a Síria e a Palestina, além de ameaçar o próprio Egito, o que forçou Ptolomeu Epifânio a assinar um tratado de Paz com Antíoco Magno em 198 AC, onde, entre outras concessões, dava a ele a posse da região conhecida como Celessíria, que abarcava a Síria e regiões adjacentes, entre elas, a Palestina, Samaria e Judéia. Israel ficou sob domínio selêucida até 164 AC.

 A primeira tradução do Antigo Testamento

Durante o reinado de Ptolomeu Filadelfo, a cidade de Alexandria era uma referência de cultura, tendo sua famosa biblioteca milhares de exemplares. Incentivado por seu soberano, o responsável pela biblioteca, chamado Demétrio Falero, enviou mensageiros a Eleazar, então sumo sacerdote, pedindo um exemplar da lei pra que fosse traduzido para o grego e que lhe fosse enviado um ou dois tradutores, o que muito agradou ao sacerdote, que enviou 6 tradutores para cada tribo de Israel, num total de 72. A tradução teria levado 72 dias e, apesar de os tradutores terem sido mantidos em salas separadas, todos eles produziram versões idênticas do texto em setenta e dois dias, fruto do trabalho dos escribas desenvolvido no cativeiro babilônico, mas também uma maneira de demonstrar o zelo do próprio Deus pela sua palavra expressa, fato que agradou muito ao rei e a Falero.

A Septuaginta, LXX ou Tradução do Setenta foi largamente usada até o século 2 AD. Jesus e os discípulos citam trechos da Septuaginta em seus discursos. Segundo estudiosos do texto bíblico, pelo menos 300 citações da LXX aparecem no Novo Testamento. Também foi a base para a tradução do AT para as versões eslava, armênia, georgiana e copta.

Imperio seleucida

O império selêucida foi o maior em extensão territorial oriundo dos domínios de Alexandre e abarcava a região da Celessíria, que inclui Síria e a Judéia

Domínio Selêucida e as Profecias de Daniel

Seleuco I foi o general de Alexandre que se apossou do centro do reino persa em 306 AC, na divisão das conquistas macedônias, criando a dinastia dos selêucidas. Inicialmente estabeleceu Babilônia como sua capital, mas seu interesse na região da Síria levou-o a fundar sua própria capital, Antioquia, batizada assim em homenagem a seu pai, Antíoco. O domínio de Seleuco era maior que o de todos os outros generais, mas mesmo assim o império selêucida era expansionista e sempre esteve em guerra com os demais generais, principalmente com a dinastia dos Ptolomeus, no Egito, que haviam ficado com o controle da Celessíria, um ponto de honra para Seleuco. Jerusalém e a Palestina foram tomadas por seu descendente, Antíoco Magno, em 200 AC. Ainda ancorando nossa pesquisa na Bíblia, o capítulo 11 de Daniel nos descreve a profecia das guerras Sírias e o resultado da dominação selêucida. Vamos fazer um paralelo entre as profecias e os fatos históricos:

(Dn. 11:3-4): Depois, se levantará um rei poderoso, que reinará com grande domínio e fará o que lhe aprouver. Mas, no auge, o seu reino será quebrado e repartido para os quatro ventos do céu; mas não para a sua posteridade, nem tampouco segundo o poder com que reinou, porque o seu reino será arrancado e passará a outros fora de seus descendentes.

Foi o que aconteceu na conquista de Alexandre, O Grande, que expandiu seus domínios rapidamente e subjugou o império persa, mas também morreu prematuramente deixando suas conquistas para 4 herdeiros que não eram seus descendentes.

(Dn. 11:5-6): O rei do Sul será forte, como também um de seus príncipes; este será mais forte do que ele, e reinará, e será grande o seu domínio. Mas, ao cabo de anos, eles se aliarão um com o outro; a filha do rei do Sul casará com o rei do Norte, para estabelecer a concórdia; ela, porém, não conservará a força do seu braço, e ele não permanecerá, nem o seu braço, porque ela será entregue, e bem assim os que a trouxeram, e seu pai, e o que a tomou por sua naqueles tempos.

O citado reino do Sul é o Egito, enquanto o do norte são os selêucidas, representados pela Síria. Para tentar manter a paz entre os impérios, Ptolomeu Filadelfo ofereceu sua filha, Berenice, em casamento ao neto de Seleuco, Antíoco Theos. Para tanto, Antíoco repudiou sua esposa, Laódice, tratando-a como concubina. Mais tarde, restituiu o status real a Laódice, que se aproveitou para livrar-se tanto de Antíoco quando de Berenice e seu filho, mantendo sua prole como descendência real e quebrando o pacto com os Ptolomeus.

 (Dn. 11:7-8): Mas, de um renovo da linhagem dela, um se levantará em seu lugar, e avançará contra o exército do rei do Norte, e entrará na sua fortaleza, e agirá contra eles, e prevalecerá. Também aos seus deuses com a multidão das suas imagens fundidas, com os seus objetos preciosos de prata e ouro levará como despojo para o Egito; por alguns anos, ele deixará em paz o rei do Norte.

Ptolomeu Evergeta não só derrotou o filho de Laódice, Seleuco II, como também a matou em vingança por sua irmã Berenice. Numa demonstração de superioridade, atacou o território selêucida, dominou todas as terras da Síria até o rio Eufrates e pilhou Babilônia. Os Ptolomeus só confrontariam novamente os selêucidas quando o filho de Seleuco II, Antíoco Magno, chegasse ao poder.

 (Dn. 11:15-19): O rei do Norte virá, levantará baluartes e tomará cidades fortificadas; os braços do Sul não poderão resistir, nem o seu povo escolhido, pois não haverá força para resistir. O que, pois, vier contra ele fará o que bem quiser, e ninguém poderá resistir a ele; estará na terra gloriosa, e tudo estará em suas mãos. Resolverá vir com a força de todo o seu reino, e entrará em acordo com ele, e lhe dará uma jovem em casamento, para destruir o seu reino; isto, porém, não vingará, nem será para a sua vantagem.

Antíoco Magno domina a Celessíria em definitivo, com apoio do rei Filipe V da Macedônia, e também a Palestina, a “terra gloriosa”, submetendo o Egito a um tratado de paz que muito favorecia o império selêucida. Nesse ato, Ptolomeu Epifânio, rei do Egito, aceitou se casar com a filha de Antíoco Magno, Cleópatra. Antíoco visava assim poder manter os Ptolomeus sob controle, mas ela buscou garantir a hegemonia do Egito e seu lugar no trono, buscando ajuda dos romanos. Depois dela, a dinastia das Cleópatras permaneceu no poder até o fim da dinastia ptolomaica.

 (Dn. 11:18-19): Depois, se voltará para as terras do mar e tomará muitas; mas um príncipe fará cessar-lhe o opróbrio e ainda fará recair este opróbrio sobre aquele. Então, voltará para as fortalezas da sua própria terra; mas tropeçará, e cairá, e não será achado.

Motivado pelas vitórias contra o Egito, Antíoco Magno volta suas atenções para a Europa, mais especificamente para Roma. Antíoco invadiu Trácia e Pérgamo, declarando-as sua posse, o que fez com que Roma voltasse as atenções para seu avanço. O “príncipe” é o general romano Lúcio Cornélio Cipião, que derrotou Antíoco em seguidas batalhas, até sua vitória definitiva em 189 AC. No ano seguinte, Cipião faz com que Antíoco Magno assine a Paz de Apaméia, tratado que tomava dos selêucidas toda a parte da Ásia que permitisse acesso ao Mar Mediterrâneo. Antíoco voltou para a Pérsia, onde morreu. Sabe-se que seus filhos foram levados como reféns para Roma, mas a partir desse ponto (187 AC), Antíoco Magno desaparece da história e, de fato, não foi mais achado.

 (Dn. 11:20): Levantar-se-á, depois, em lugar dele, um que fará passar um exator pela terra mais gloriosa do seu reino; mas, em poucos dias, será destruído, e isto sem ira nem batalha.

Essa é uma menção a Seleuco Filopater, sucessor de Antíoco Magno, que, em dívida com os romanos, que agora eram seus suseranos, decidiu enviar um exator chamado Heliodoro ao templo de Jerusalém a fim de cobrar impostos do sumo sacerdote Onias, um homem tão avarento que preferiu arriscar a integridade de Jerusalém e Israel a pagar qualquer imposto que fosse. Mesmo sendo rei, Seleuco Filopater era tão inócuo que nada fez a respeito, provocando a revolta de seus servos, inclusive Heliodoro, que o matou em 176 AC.

 

Antíoco Epifânio e a “Abominação Desoladora”

(Dn. 11:21-24): Depois, se levantará em seu lugar um homem vil, ao qual não tinham dado a dignidade real; mas ele virá caladamente e tomará o reino, com intrigas. As forças inundantes serão arrasadas de diante dele; serão quebrantadas, como também o príncipe da aliança. Apesar da aliança com ele, usará de engano; subirá e se tornará forte com pouca gente. Virá também caladamente aos lugares mais férteis da província e fará o que nunca fizeram seus pais, nem os pais de seus pais: repartirá entre eles a presa, os despojos e os bens; e maquinará os seus projetos contra as fortalezas, mas por certo tempo.

Antíoco Epifânio (“deus manifesto” ou “deus visível”), irmão mais novo de Seleuco Filopater, foi liberto em Roma para ser o regente após a morte do irmão até que seu sobrinho alcançasse idade para assumir o reino. Epifânio, no entanto, providenciou não só a morte de Heliodoro, assassino de Seleuco, mas também de seu sobrinho, também chamado Antíoco, herdeiro do trono. Como o irmão mais velho de Seleuco, Demétrio Sóter, permanecia refém em Roma, Epifânio passa a ser o único herdeiro legítimo a pleitear o trono selêucida, e o assume em 175 AC.

O chifre que cresceu muito – Antíoco Epifânio (Dn. 8:9-14)

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Alguns estudiosos tentam interpretar que a “ponta” que brota de um dos chifres e cresce muito faz referência a Roma, mas o consenso geral aponta para uma situação mais estrita. Os 4 chifres representam os 4 herdeiros de Alexandre Magno. De um desses chifres sai uma ponta lateral que rapidamente se torna muito grande. Trata-se de Antíoco Epifânio, rei selêucida que dominou com mão de ferro a região de Israel, principalmente no que diz respeito à cultura. Epifânio tentou inserir elementos gregos na cultura e no culto judaicos, culminando na profanação do templo ao oferecer porcos no altar do sacrifício. Sua intenção era que os judeus aderissem ao sincretismo religioso, mostrando que qualquer coisa poderia ser oferecida aos deuses e que Yahweh não seria único nem especial em relação a outras divindades. O texto de Daniel diz que o chifre cresceu para o sul e para a “terra gloriosa” (a Palestina e Jerusalém ficavam ao sul do império de Epifânio, Vv. 9), que atingiu o “exército dos céus” e as estrelas (Vv. 10) e que aboliu o sacrifício ao Senhor (Vv. 11).

Diferente dos Ptolomeus, que não faziam questão de nenhuma mudança religiosa da parte dos moradores dos territórios conquistados desde que se mantivessem fiéis ao império e pagassem seus impostos, os selêucidas impunham não somente a deidade do imperador e de sua esposa, mas também forçavam a adoção da cultura grega pelos dominados e não apenas religiosa: deveriam aprender a cultura, filosofia e hábitos gregos, além de acolher o politeísmo. Por este motivo, o trato dos judeus com os dominadores selêucidas não foi simples nem fácil, levando a revoltas e muitas mortes. A real intenção de Epifânio era fazer com seus dominados abraçassem a cultura helenista a fim de minar o poderio romano na região, unificando as cidades de seu domínio sob a égide grega.

Em 175 AC, morre o sumo sacerdote Onias. Como só deixara um filho de pouca idade, o cargo deveria ser passado a um de seus irmãos, Jesus (Jasão) ou Onias (Menelau). Como era o mais velho, Epifânio constitui Jasão como sumo sacerdote, mas logo ficou insatisfeito com este e passou o cargo a Menelau. Com isso houve uma cisão na casa sacerdotal, polarizada em 2 partidos, o dos Piedosos ou judaizantes, que defendiam a manutenção das práticas religiosas e sociais judaicas, defendido por Menelau e a classe sacerdotal, e o dos Helenizantes, que defendiam a absorção da religião e costumes gregos. Para tentar conseguir o favor de Epifânio, Jasão, que era mais benquisto entre os Judeus que seu irmão, procurou o monarca e disse que o povo estava disposto a abandonar os costumes judaicos e receber a religião e costumes gregos, além de pedir autorização para construir um ginásio e uma praça de esportes em Jerusalém. Ele consentiu, o que fez com que muitos judeus aderissem a práticas gregas, ao ponto de esconderem seu sinal de circuncisão quando na prática de esportes gregos como luta e corrida, que os atletas disputavam nus. Já o partido de Menelau, composto pelos mais ricos da cidade, ofereceu um dote a Epifânio pelo cargo, que aceitou e manteve Menelau como sumo sacerdote em 172 AC.

(Dn. 11:29-30): No tempo determinado, tornará a avançar contra o Sul; mas não será nesta última vez como foi na primeira, porque virão contra ele navios de Quitim, que lhe causarão tristeza; voltará, e se indignará contra a santa aliança, e fará o que lhe aprouver; e, tendo voltado, atenderá aos que tiverem desamparado a santa aliança.

Epifânio partiu para tentar conquistar o Egito, no que avançou bastante, e teria conseguido se não fosse a intervenção da república Romana (“navios de Quitim”), que o lembrou de sua vassalagem, além de ameaçar a integridade de seu reino. Frustrado no seu intento, retorna a Jerusalém em 167 AC e descobre que desde 169 AC Jasão havia tomado posse da cidade e matado vários partidários de Menelau. Já sem paciência para lidar com aquela cidade complicada, e sob conselho de Menelau, mandou matar várias pessoas, inclusive alguns que lhe abriram os portões e o receberam como senhor, revogou os privilégios de cidadania dos habitantes, queimou os maiores edifícios, derribou muralhas e pilhou completamente o templo, levando os vasos consagrados, o candelabro, as mesas e todos os tesouros que encontrou lá, fechando por fim o templo e suspendendo todo culto na forma de sacrifício. Na Cidade Baixa, construiu uma fortaleza com grandes torres e colocou uma guarnição de macedônios e judeus simpatizantes, com as ruas e entradas da cidade permanentemente controladas por soldados, que cometiam muitas atrocidades contra os habitantes.

(Dn. 11:31-35): Dele sairão forças que profanarão o santuário, a fortaleza nossa, e tirarão o sacrifício diário, estabelecendo a abominação desoladora. Aos violadores da aliança, ele, com lisonjas, perverterá, mas o povo que conhece ao seu Deus se tornará forte e ativo. Os sábios entre o povo ensinarão a muitos; todavia, cairão pela espada e pelo fogo, pelo cativeiro e pelo roubo, por algum tempo. Ao caírem eles, serão ajudados com pequeno socorro; mas muitos se ajuntarão a eles com lisonjas. Alguns dos sábios cairão para serem provados, purificados e embranquecidos, até ao tempo do fim, porque se dará ainda no tempo determinado.

Ainda na sua cólera, Epifânio mandou fazer um altar no templo e ordenou que ali se sacrificassem porcos constantemente, profanando o santuário no que tange às leis judaicas. Proibiu também a prática da circuncisão e das restrições alimentares prescritas na Lei. Queimou todos os livros das sagradas escrituras que pôde encontrar, além de torturar e matar todos que estivessem na casa onde foram encontradas. Finalmente, mandou trazer uma imagem de Zeus para ser posta no templo, que a profecia chama de “abominação desoladora”. A maioria se submetia pelo medo das represálias, mas nunca deixaram de existir os que permaneceram fiéis a Yahweh e às leis de seus pais. Como é perceptível no AT, Deus nunca deixa de estar à frente da situação e sempre preserva seu remanescente.

 

O surgimento e ascensão dos Hasmoneus

 Em meio a esse cenário, numa aldeia da Judéia chamada Modim, havia um sacerdote de nome Matatias, nascido em Jerusalém, que se via incomodado com o autoritarismo de Epifânio e com a situação religiosa da cidade, sempre deixando bem claro a seus 5 filhos que estaria disposto a morrer pela defesa do país e da religião judaica genuína do que se dobrar aos dominadores. Em pouco tempo, chegaram emissários de Epifânio e, sendo ele o principal sacerdote da região, o procuraram, dando ordens para que instituísse os sacrifícios pagãos e prometendo favores e recompensas, mas ele se recusou imediatamente. O emissário então, diante de Matatias, encontrou outro judeu disposto a oferecer sacrifício. Inconformado, Matatias e seus filhos sacaram suas espadas e mataram o judeu, o oficial do rei e a guarnição de soldados que o acompanhava. Em seguida, Matatias derribou o altar e chamou para junto de si todo homem que amava a religião judaica e o serviço a Deus. Era o começo da revolta dos Macabeus.

Matatias macabeus

Matatias conclama os judeus para se revoltarem contra os selêucidas (desenho de Gustave Dore)

Matatias seguiu para o deserto com seus filhos e um grupo considerável de seguidores. Ele precisou orientar os judeus piedosos que o acompanhavam sobre como funcionava uma guerrilha, já que alguns estavam sendo mortos pelos macedônios por se recusarem a lutar no sábado. Também promoveu circuncisões dos filhos de judeus, que tinham sido impedidos por Epifânio de cumprir o ritual. Judeus que se encontravam refugiados nas nações vizinhas se juntaram às tropas de Matatias. Em pouco tempo, já tinham força suficiente para rechaçar os destacamentos que Epifânio mandava para tentar captura-los. Também invadia as vilas e pequenas cidades da Judéia, onde matava os que se tornaram adeptos da idolatria grega e derribava seus altares. Cerca de 1 ano desde o começo da revolta, Matatias adoeceu mortalmente, mas antes de falecer deu ordem a seus filhos que continuassem a resistir, que ficassem sempre unidos e que perseverassem fiéis à Deus e à religião, sabendo que Yahweh lhes seria favorável se assim procedessem. Nomeou seu filho Simão como conselheiro e Judas Macabeu como líder militar dos revoltosos e pouco depois faleceu.

Macabeu, de fato, era um general habilidoso, que sabia incentivar suas tropas. Seu mote era a guerra santa, sempre firmado na história de Israel pré-exílica, onde o livramento vinha de Deus e não dos homens, usando discursos inflamados que tocavam o orgulho dos rebeldes e os fazia lutar com grande bravura, o que garantiu a vitória em diversas batalhas onde o número inferior de soldados e a situação estratégica pareciam desfavoráveis. Em questão de 3 anos, em 164 AC, Macabeu já tinha novamente o controle de Jerusalém. Nesse mesmo ano, restaurou o templo, removeu os ídolos, derribou o altar profanado e construiu outro de acordo com a Lei em seu lugar. Repôs o candelabro, a mesa dos pães da proposição e os incensários, fez sacrifícios sobre o altar e, assim, reconsagrou o templo numa grande festa de 8 dias, que passou a ser comemorada como Hanukkah. Mandou também restaurar as muralhas da cidade, fortificou as torres e colocou soldados para defendê-las. Em seguida, lutou contra os povos vizinhos que faziam oposição aos judeus, especialmente os samaritanos e idumeus, tomou deles cidades e as fez parte da Judéia.

(Dn. 11:44-45): Mas, pelos rumores do Oriente e do Norte, será perturbado e sairá com grande furor, para destruir e exterminar a muitos. Armará as suas tendas palacianas entre os mares contra o glorioso monte santo; mas chegará ao seu fim, e não haverá quem o socorra.

Ainda nesse ano, Antíoco Epifânio, que não enfrentou diretamente os Macabeus por estar envolvido com outras revoltas em seus domínios, é acometido de uma terrível doença (suspeita-se ser um câncer) e morre, desgostoso pelas derrotas militares e sem a possibilidade que alguém o socorresse. Por suas ações, Epifânio é a representação do Anticristo, já que as profecias de Daniel reúnem eventos da época intertestamentária, mas que também fazem alusão ao fim dos tempos. A guerra dos Macabeus não terminou com a morte de Epifânio. Antíoco Eupátor, seu herdeiro, prosseguiu na tentativa de sufocar a rebelião. Eupátor tinha apenas 12 anos e era tutorado pelo general Lísias. Inicialmente tentou estabelecer a paz com judeus, fazendo com eles um tratado onde jurava não interferir na prática religiosa judaica, desde que lhe permanecessem vassalos. Além disso, destituiu o infame Menelau do cargo de sumo sacerdote e o deportou para Antioquia, onde foi morto sem honra. Isso não pareceu ruim aos judeus, que estavam inclinados a honrar o pacto, mas duas atitudes de Eupátor fizeram com que entendessem que ele tinha violado o tratado: 1) Escolheu um outro sacerdote, Alcim, e não o filho de Onias, legítimo sucessor, que era muito jovem quando Menelau assumiu; 2) Ao ver o muro do templo, achou que era muito forte e tornaria aquele lugar um refúgio em caso de guerra, por isso o derribou. Estas duas ações impediram que a rebelião chegasse ao fim.

Nesse ínterim, Demétrio Sóter, irmão mais velho de Antíoco Epifânio e herdeiro legítimo do trono selêucida, escapa de Roma com ajuda de senadores e se estabelece na cidade Trípoli, no Líbano. Foram entregues a ele pelo próprio povo Lísias e Antíoco Eupátor, que foram executados por sua ordem. Demétrio foi procurado pelo sumo sacerdote Alcim, que era inimigo de Macabeu, e fez falsas denúncias e calúnias contra o líder rebelde. Segundo Josefo, Alcim era um orador imponente, capaz de convencer a quase todos que o ouviam, mas que por trás dessa fachada era ganancioso e maligno. Demétrio, convencido pelo testemunho de Alcim, enviou contra Macabeu seus maiores generais, Báquides e Nicanor. O primeiro tentou matar Macabeu à traição, se apresentando como aliado, mas a pressa o fez entregar seu estratagema, de forma que teve de voltar ao rei. O segundo entrou em embates aguerridos contra os Macabeus, provocando grandes baixas, mas não pode resistir às estratégias de Judas e foi morto em combate. Na mesma ocasião, Alcim é vítima de uma doença fulminante e morre em 3 dias. O povo e a casa sacerdotal unanimemente escolheram a Judas Macabeu como o novo sacerdote, por volta de 163 AC.

Macabeu percebe, mesmo saindo vitorioso dos embates, que os inimigos eram cada vez mais fortes, que a conquista de Jerusalém para eles era questão de honra familiar e que viriam cada vez mais exércitos, maiores e mais fortes, de forma que Israel precisaria de um aliado poderoso. E constatou, com muita razão, que Roma era a mais poderosa nação da época, de forma que encaminhou dois emissários ao senado romano para lhes pedirem que fosse ordenado a Demétrio Sóter o fim das hostilidades contra a Judéia. Este foi o primeiro contato dos líderes judeus com os romanos. Os romanos deram parecer favorável ao pedido de Macabeu, mas é bem provável que esta resposta não tenha chegado a tempo, pois em 160 AC Demétrio enviou Báquides novamente, com um exército ainda mais poderoso, que derrotou e matou Judas Macabeu. Imediatamente os judeus elegeram a Jônatas, irmão de Macabeu, como líder. Jônatas enfrentou a cólera do general Báquides, mas acuou o inimigo no cerco de Bete-Busi e obrigou-o a assinar a paz, num tratado que previa, entre outras coisas, que Báquides jamais voltaria à Judéia como um militar. Demétrio Sóter não voltou mais a investir contra Jerusalém, possivelmente em razão do pacto entre Roma e os judeus, mas também foi uma época onde precisou lidar com conflitos internos. Entrementes, Jônatas também se torna um líder tão respeitado quanto Judas, ficando estável no governo da província da Judéia até sua morte, em 142 AC.

O grande desafio de Demétrio Sóter naquele momento tinha pouco a ver com os judeus. Um cidadão humilde de Éfeso percebeu ter grande semelhança com as imagens e esculturas de Antíoco Epifânio e passou a tentar convencer as pessoas que era um filho bastardo do rei selêucida. Seu nome era Alexandre Balas e certamente devia ser muito parecido com Epifânio, pois foi apoiado como herdeiro pelo reino de Pérgamo, pelo Egito e até pelo senado romano. Balas e Demétrio disputaram a aliança com Jônatas, sendo que ele se aproveitou de ambos (seu ódio era inteiramente contra Demétrio), conseguindo do rei a reconstrução e o reforço das muralhas e fortes de Jerusalém, enquanto Balas lhe assegurou o cargo de sumo sacerdote. Com a morte de Demétrio pelas mãos de Balas, Jônatas recebeu grandes honras do novo rei e ascendeu a sumo sacerdote. Alexandre Balas é morto pelo filho de Demétrio Sóter, Demétrio Nicator, que assume o reino em 145 AC. Nicator diminuiu o soldo de suas tropas em tempos de paz e se torna muito impopular entre seus próprios soldados. Um de seus generais, Diódoto Trifão, salvou em segredo o filho de Alexandre Balas, Antíoco Dionísio, e, num golpe militar em 144 AC, promoveu Dionísio ao trono, colocando Nicator como um de seus militares subordinados.

Jônatas estava atento às agitações na família real selêucida e, já prevendo que poderiam acontecer novas incursões militares em Israel, buscou novamente o auxílio dos aliados romanos e também de Esparta. Embora militarmente correta, esta atitude começou a dividir opiniões, tanto num aspecto religioso, onde se discutia se essas alianças com povos pagãos não iriam contra o conceito de que era Deus quem manteria segurança e hegemonia de Israel, quanto político, onde se questionava se as ações dos Macabeus eram válidas, já que o sumo sacerdócio foi dado a eles por conveniência política, uma vez que não eram de uma família da linhagem dos sumos sacerdotes. As diferentes posições políticas, religiosas, filosóficas e sociais dividiam os judeus, levando ao surgimento de 3 seitas divergentes dentro do judaísmo: os Fariseus, os Saduceus e os Essênios.

As 4 seitas dentro do judaísmo

Na época dos Macabeus, 3 seitas dominantes surgiram, a saber, os fariseus, os saduceus e os essênios. Não há como saber exatamente como surgiram, mas a primeira citação ocorre no tempo dos Macabeus, quando Jônatas Macabeu era sumo sacerdote. As 3 seitas divergiam em diferentes medidas da posição de Jônatas de se aliar aos romanos para garantir a estabilidade de Israel diante dos selêucidas. Segundo Josefo, para os fariseus, certas coisas dependem apenas do destino, mas nem tudo, logo a ação humana nos permite a realização; para os essênios, tudo na nossa vida só é definido pelo destino e não há nada que o homem possa fazer; já os saduceus não criam em destino e acreditavam que todo bem ou mal era fruto exclusivo de nossas ações. Dessa simples diferença filosófica essas seitas evoluíram para verdadeiros partidos e centros de poder no governo da Judéia.

Os Fariseus talvez fosse o ramo mais equilibrado dos três. Para eles, as escrituras eram a Torá (lei) e os escritos sagrados (profetas), além da tradição oral (Mishná, Talmude, Gemara). Atribuem ao destino tudo o que acontece, mas sem excluir a responsabilidade humana nas ações, ou seja, sendo tudo feito por ordem de Deus, depende, no entanto, da nossa vontade entregarmo-nos à virtude ou ao vício. Criam na imortalidade da alma e que as ações em vida seriam julgadas em outro mundo, sendo recompensadas ou castigadas de acordo com o que foram nesta vida — virtuosas ou viciosas. O ensinamento de uma recompensa pós-vida para um povo que vivia debaixo de tão grande sofrimento faziam com que a maior parte do povo estivesse submetida ao ensino dos fariseus. Mas o que aconteceu é que os fariseus se viram inflados na sua religiosidade, se achando superiores ao povo comum, acabando por se tornarem opressores tão agressivos nas questões de conduta e práticas religiosas que criavam regras que nem mesmo eles estavam dispostos a seguir. Foi a única seita que permaneceu após a queda de Jerusalém em 70 AD e foi dela que se originou o atual judaísmo rabínico.

Os Saduceus compunham uma seita menos espiritual, embora fosse a mais fundamentalista, o que é estranho, já que seriam da descendência do sumo sacerdote Zadoque, do tempo de Davi e Salomão. Não se sabe muito sobre suas doutrinas, mas é fato que eram fundamentalistas, não aceitavam nenhum escrito sagrado além da Torá, rejeitavam a tradição oral dos fariseus, não criam em anjos ou na imortalidade da alma. Mesmo a Torá era interpretada com relativização. Também eram mais abertos a doutrinas helenizantes. Os adeptos dessa seita sempre estiveram em menor número que os fariseus, mas era composta de pessoas ricas e poderosas, que mantinham o controle e a administração do templo. À exceção de Salomé Alexandra, todos os governadores de Israel estiveram mais alinhados aos Saduceus. Eles controlaram o templo e as coisas públicas de Jerusalém até a destruição da cidade, em 70 AD, quando desapareceram.

Os Essênios eram um grupo asceta, apocalíptico e messiânico. Constituíram comunidades quase monásticas, que viviam no deserto, nos montes ou em assentamentos. Sobre a questão do destino, entendiam que tudo, sem exceção, se deve à providência de Deus. Criam que as almas são imortais e que se devia fazer todo o possível para praticar a justiça. Enviavam suas ofertas ao Templo, sem oferecer lá os sacrifícios, porque o faziam em particular, com cerimônias ainda maiores. Os seus costumes eram extremamente frugais, como habitar em tendas, sem confortos. A principal atividade era agrícola, para subsistência. Possuíam todos os bens em comum, sem ricos ou pobres. Não tinham mulheres nem escravos. Tinham um grande senso de preservação das escrituras, além de uma esperança nas promessas da vinda do messias de Deus, apoiados em trechos proféticos messiânicos que falavam da restauração de Israel. Segundo Josefo, os essênios eram pouco mais de 5.000 pessoas, que foram erradicadas pelos romanos no último cerco a Jerusalém, em 68 AD. No Novo Testamento, o perfil de João Batista, a descrição de seu visual, práticas e sua pregação messiânica, são itens que o  assemelham aos essênios, sendo bastante provável que João Batista vivesse entre os essênios ou que mantivesse contato estreito com eles.

Por fim, a seita dos Zelotes, a mais tardia, foi fundada no ano 6 AD por Judas de Gamala (ou Judas o Galileu, citado por Gamaliel em Atos 5:37), durante o censo de Quirino, que visava aumentar os impostos sobre os judeus. Era composta de radicais inspirados nas ações de Matatias, pai dos Macabeus, que “zelou” pela manutenção da lei religiosa judaica, tradição que só poderia ser garantida pela força das armas e com Israel livre das amarras de seus opressores. A ideologia dos zelotes era de que em breve surgiria um messias militar, que libertaria o país e subjugaria os romanos com mão de ferro. O comportamento dos zelotes lembra o que hoje em dia os terroristas fundamentalistas praticam. Jesus teve dois discípulos zelotes, Simão e Judas Iscariotes. Os zelotes a sua evolução, os sicários, seriam os responsáveis por desencadear a primeira Guerra Judaico Romana, que culminaria com a destruição de Jerusalém e do templo, em 70 AD.


Parte 3: Israel de reino autônomo a domínio romano

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